Sevilha 2009

 “Quantos quilómetros tem a Maratona?”

Pergunta frequente feita por familiares e amigos desta “tribo” de gente um pouco diferente que corre estas provas. Grupo que parece aumentar de número todos os anos, o que não deixa de ser interessante... Mas como diria o precioso repórter “Sabino Rui” (do precioso TeleRural) “Sim, Zé. É digno de reflexão aquilo que atrai mais e mais pessoas à Maratona... mas não foi isso que me trouxe aqui hoje!”. Às vezes a pergunta é ainda mais curiosa: “ E quantos km tem esta maratona que vais fazer?!!”. A resposta em ambos os casos é muito simples: “Tem 42 km”.

Errado.

 

A nossa Maratona de Sevilha começou poucas semanas depois da prova em Berlim onde foi estabelecido o recorde do Mundo (e onde a GAFE bateu também vários recordes... talvez apenas recordes de um certo local de um certo parque de estacionamento no Estádio Nacional!). A atracção de Sevilha era a proximidade geográfica e menor despesa e menor logística envolvidas. E o facto de ser plana, como é plana boa parte da Andaluzia. “Perdemos” com tristeza o Pedro Oliveira pelo caminho. Ficaram o Carlos, o Luís, o Nuno e eu próprio como atletas inscritos e a treinar. Mas “ganhámos” entretanto o apoio da Ana e do Jorge, e da IA, que decidiram viajar connosco, na nobre missão de “tratar dos atletas”. A KL quase que veio também e sabemos que o Bento, o Elvis e o Paulo estavam connosco. Não é uma missão fácil a de viajar para “apenas apoiar” os corredores, pois estes têm manias que tipicamente testam o altruísmo dos melhores acompanhantes (p.ex., ter de comer à hora x e no restaurante y... ter de dormir cedo..., não poder caminhar de mais no dia antes, etc.). E não conseguem falar de outra coisa que não “hidratos”, “chips e dorsais”, “ritmos de passada”, etc... Pois foram simplesmente impecáveis os nossos três comparsas! Para eles um obrigado em forma de abraço, com um beijinho lá dentro para quem quiser.

A (minha) Maratona de Sevilha estava planeada para ser uma prova “sem metas”, excepto acompanhar o Luís na sua (expectável) primeira prova abaixo das 3h00. O meu processo de treino desde Outubro, mais descontraído que o costume, correu bem. Sem lesões, sem grandes paragens e com o stresse (inimigo de muitos períodos de treino anteriores) sob controlo. O Carlos foi um parceiro super-regular que me “manteve a correr”, mesmo quando a motivação ou disponibilidade baixavam um pouco. E o Luís ia estando presente nos longos e na pista, o que ajudava à sobrecarga necessária ao treino. Notei que cheguei à semana anterior a Sevilha em muito boa forma. Sentia-me leve e a experiência dizia-me que estava com o “ritmo confortável” mais rápido do que alguma vez no passado. Ainda assim não tinha grande incentivo para baixar das 2:57 e por isso não pensava em lutar por isso. Sofrer bastante para baixar apenas alguns minutos não me fazia muito sentido, por comparação com a possibilidade atraente de correr com o Luís até ao fim. Mas no Sábado de manhã, uns minutos antes de sair de casa para Sevilha, uma rápida visita ao site da Maratona de Nova Iorque “trocou-me as voltas”...

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Para NY já me inscrevi no sorteio várias vezes no passado, sempre sem êxito. E este ano, muitos de nós gostaríamos de participar e planeámos por isso comprar as inscrições a uma agência, incluindo hotéis e viagens no pacote. Contudo, no Sábado de manhã verifiquei que existem tempos que garantem a inscrição na prova, sem sorteio! Não fazia ideia de tal coisa até ser alertado para tal por um amigo. E vi que para a minha idade o tempo é 2:55... (não 2:55:59, como seria norma para Boston... mas sim 2:55:00 ou abaixo). Fiquei a pensar no assunto... Tendo feito 2:57:08 em Berlim e estando bem fisicamente, seria possível pensar em baixar das 2:55 (ritmo 4:08)? Partilhei o assunto com os companheiros durante a viajem... “Brinquei” com a ideia na cabeça... “Dormi” com ela... Pedi a opinião ao Carlos no Domingo ao amanhecer... E decidi que ia correr com o Luís pelo menos até à Meia a um ritmo que fosse viável para ele (eu sabia que ele gostaria e poderia bater as 3:00, ou seja, correr abaixo de 4:15), mas um que não comprometesse a possibilidade de eu acelerar mais tarde se me sentisse bem, e ainda assim lutar para bater as 2:55. Desta forma correria boa parte da prova ao seu lado, com a vantagem que me obrigaria a mim próprio a correr “de trás para a frente”, a forma mais desejável de correr uma maratona, na minha opinião. E assim seria...

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A partida foi muito lenta com a saída do estádio bastante apertada. Depois lá acertámos o passo e fizemos juntos os primeiros 20km a um passo médio de 4:12-4:13. Estava tudo perfeito. O tempo ajudava, sem vento e com temperatura fresca (10-12 graus). O público não era imenso mas era regular e generoso. O Luís parecia bem, embora com algum (saudável) receio de acelerar. Não lhe dei grande “troco” quando me pediu para adivinhar a que km ia “estoirar”. Conheço bem a fibra dele e sabia o treino que tinha nas pernas... Eu estava fresco e sentia-me por vezes a “travar”, mas fazia-o conscientemente, para garantir uma 1ª metade mais lenta que a segunda. E psicologicamente é sempre “menos cansativo” ter um amigo por perto. Assim era bom para os dois. E fui ficando. Até que a algumas centenas de metros da Meia, o “travão soltou-se”... Sentia-me muito bem e quando reparei tinha já 20-30 metros de distância do Luís, que vinha com um grupo de Portugas (com quem tínhamos brincado uns minutos antes). Percebi que para nos voltarmos a juntar, eu teria de abrandar muito. Chegara a altura de fazermos a nossa prova. Cortei a Meia com 1:29:00 no meu relógio, olhei para trás, acenei ao Luís e lá fui sozinho...

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Para fazer 2:55 teria de correr a segunda metade em menos de 1:26. Sinceramente, por estranho que possa parecer, não fiz na altura esta conta simples...! Apenas tinha presente que teria de andar algo abaixo da média de 4:09, que sabia corresponder ao 2:55 final. Talvez me tivesse assustado se tivesse pensado que fiz 1:25:36 na última Meia em Dezembro, em Lisboa, a correr no limite. Tinha agora que fazer o mesmo, mas com uma Meia nas pernas! Mas já não me lembrava disso. Comi meia Powerbar com água aos 23 km, e lá segui. As pernas começavam a pesar um pouco. Ia vendo grupos de corredores à minha frente, de 15-20 atletas cada. Invariavelmente apanhava-os e dizia a mim próprio “agora fico aqui”. E invariavelmente, alguns segundos depois, via-me na frente do grupo e não conseguia lá ficar. Isto aconteceu talvez 4 vezes. Da última vez, numa recta que nunca mais acabava, deixei mais um grupo para trás ao lado de 2 espanhóis (tipo fuga do pelotão, no ciclismo!) e lá andámos a bom ritmo uns 3-4 km. Percebia talvez metade do que eles diziam, mas as nossas respirações ritmadas comunicavam sem palavras. Percebe-se facilmente em grupo quem vai forte, quem vai a custo, quem vai ficar para trás. Um deles ia a custo e ficou para trás. Fiz mais 3 km com o outro, um pouco mais velho que eu. Engoli o Powergel que levava (obrigado, Nuno!) quase de uma assentada aos 32-33km. Lutei para não o deixar fugir pois sabia que sozinho seria mais duro... Fui ficando.

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Até que ao fundo, numa curva, vi uma bandeira Nacional! Era a Ana, equipada a rigor e prontinha para correr. Bandeira na mão. E a Isabel a tirar fotos... Disse-me a Ana na excitação do encontro breve (já não as via há mais de 1 hora – sabe tão bem ver alguém conhecido!): “Vou esperar para ir com o Carlos”. Eu respondi “OK. Deve vir já aí o Luís”... E foi tudo.

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Acho que perdi o meu parceiro espanhol na “curva Portuguesa” e estava sozinho novamente. Vinha aí o espectro do “muro”. Os 35 km... Sabia que manter o ritmo com que vinha até ao fim (entre 4:04-4:10) seria muito duro. Tinha dores em vários dedos dos pés. E tinha a companhia do cansaço de quem vai no limite da velocidade aeróbia, com 2h30 nas pernas. Só quem já passou... Juntei-me a mais um grupo, já a caminho da zona do Estádio. E pelos 36-37 km ouço uma voz Portuguesa ao meu lado “Pedrooo! Vais conseguir, vais conseguir...!”. Era o Jorge a correr quase ao meu lado, do outro lado da rua... A voz dele, quase aos berros, tinha a emoção exacta que me faltava naquele momento. Foram preciosos aqueles 20-30 segundos em que sabia tê-lo a correr atrás de mim. Era tudo o que precisava para não abrandar. Entrava nos últimos kms. Foram muito duros... Mais uma recta enorme pela frente, à entrada da antiga zona da Expo de Sevilha. O calor começava a apertar e o alcatrão era agora irregular, com pequenos buracos. Com os meus ténis de competição e as pernas e pés completamente “gastos”, cada irregularidade doía. Estava muito menos gente na estrada. Menos gente a correr à minha volta. Sozinho novamente. Imaginava que estava no limite do tempo para 2:55 e começavam as contas de cabeça, com um cérebro que já não as conseguia fazer. Aos 38 km ia com 2h38 e fiz a minha conta (errada) do costume: 3km que faltam x 4 minutos = 12 minutos e qualquer coisa... Vai dar! Já está!! Acho que gritei alto: “Já está!”. Mas 20 segundos depois, com a pouca lucidez que ainda tinha, percebi que não podia ser... 38km... Não podia ir assim tão rápido aos 38km. Ainda faltavam 4km (e não 3)! Fiz novamente as contas aos 39km (2:42 e qualquer coisa) e percebi que estava mesmo “a queimar”. Não podia abrandar.

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O Estádio estava agora à vista mas o percurso parece ainda seguir noutra direcção! Ahhh... 40km... Olhava para o ritmo instantâneo no GPS e não percebia como continuava a marcar 4:05... 4:07... 4:06... Estava de rastos. “Ânimo”, “Ânimo”, gritavam os assistentes... Nestas alturas costumo olhar para os olhos de toda a gente à apoiar, como que a tentar absorver para mim a sua calma e o seu descanso físico. O que eu daria para me sentir como eles... Sem este cansaço que quase me fazia rebentar por dentro. Mas a cabeça continua, teimosa, a mandar mais... “treinaste tantas horas”... “é isto que passam aqueles atletas na maratona olímpica”... “está quase”... “não penses, descontrai”... “aguenta, aguenta”... E lá aguentava. Passa então por mim um tipo a gemer a cada passo. Parece que há um igual em cada Maratona! Será sempre o mesmo?! Fugiu de mim uns metros e eu fui atrás dele, não sei como nem porquê... 41km... Apanho-o, vou ao lado dele uns 200m. Deixo de o ouvir. Chegava a minha hora de me manifestar em voz alta... Passo por isto com frequência em Maratonas, na parte final. Acho que é para soltar energia que o cérebro já não consegue conter... Talvez 1-2 vezes a cada minuto que passa, expiro bem alto! Às vezes é um grito ou uma palavra qualquer. As pessoas olham com espanto (“deve ser maluco!”). Mas de cada vez que o faço, tenho uns segundos de descompressão e alívio e lá se avança um pouco mais.

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Acho que vou abrandar. Mas o meu relógio continua a marcar 4:06...4:05... O Estádio está à minha frente e corro finalmente na sua direcção! Mas temos ainda de percorrer toda a rua ao seu lado e novamente parece que vamos para longe dele... É quase insuportável a sensação de ir para longe da meta nesta altura. Já não consigo pensar, mas faço agora a curva final para a entrada sul do Estádio. As pessoas apoiam mas já não registo nada. Entro no escuro da rampa de acesso e de repente estou lá dentro. Olho para o relógio e já passei as 2:54... Tenho 30-40 segundos e quase três quartos de volta para dar à pista (mais curta que uma pista oficial). Já passei os 42km mas não sei quando. Há dois arcos por cima da pista do outro lado e não percebo qual deles é a meta. É a que está mais longe! Olho para o relógio que avança... 2:54:45 e começo a curva final. “Acelera”, “acelera”... Olho para o relógio novamente... Não sinto as pernas mas sei que acelero como um louco. As bancadas estão cheias mas não ouço nada excepto os gritos do meu corpo... Parece que vou suspenso no ar nos últimos metros. Lanço-me para a meta desesperado à procura do tapete que recebe o sinal do meu chip. “Biiiip”.

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Acabou.

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Levo naquele momento a mão ao relógio para parar o cronómetro e tento olhar para o mostrador... Penso que vejo um 59 nos segundos mas alguém me agarra nesse momento pois estava quase a cair... Equilibro-me e fico ali uns segundos com as mãos nos joelhos e a cabeça para baixo até alguém me perguntar se estou bem. Estou bem. Dou uns passos, volto a olhar para o relógio e percebo que com a confusão não consegui parar o cronómetro! Páro-o finalmente com 2:55:19. Não sei o meu tempo final... Terei mesmo visto 59 segundos?

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Alguém me põe uma toalha nas costas. Sento-me finalmente e vivo aqueles minutos que quase valem por todo o treino da maratona, por todo o sofrimento. Nunca se conseguem descrever bem. Vontade de rir. De chorar... Deve ser o corpo a agradecer ter parado finalmente. E o cérebro a festejar quimicamente com uma combinação única. Alguém da organização me remove o chip dos atacadores. Agradeço com o sorriso mais honesto que tenho. Bebo água mas estou um pouco enjoado. Encosto-me e ali fico, sentado, a ver e sentir tudo aquilo. Em intimidade silenciosa com todos os que terminam. A sofrer, alguns muito. Até que vejo ao fundo o boné vermelho do Luís entre os atletas que chegam. Levanto-me e espero que chegue até mim. “Então...?” Confirma que baixou das 3h00 (2:59:08)... Que bom!! Dou-lhe um abraço apertado e sentido. Não sei se ele o sentiu como eu.

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Mais tarde chega o Carlos, eufórico, de bandeira na mão! Não bateu o seu óptimo recorde de 3:23, mas está feliz por ter terminado. A cara não esconde o que passou, mas é o sorriso que fala mais alto. Brincamos, vestimo-nos, tiramos umas fotos. Encontramos o Nuno, calmíssimo. E lá vamos ter com os nossos amigos à espera lá fora, ao sol. Passamos ainda uns minutos a incentivar quem ainda corre para o Estádio. São os últimos. Estão a fazer 4h30-5h00. Está calor. Sofrem muitíssimo no seu passo quase de marcha. Com o meu melhor espanhol puxo por eles “ânimo!”, “ vamos, vamos!”. Passa um jovem Português vestido de vermelho com as “quinas” ao peito e agora sou eu que grito com emoção “já está!”, “já está!”. Ele sorri a esforço, gesticula com o polegar a cortar o seu próprio pescoço que já não pode mais, e segue para o Estádio... Todos eles e elas olham para nós com aquele olhar exausto mas agradecido... de quem dava tudo para estar a sentir o que nós (agora) sentimos. Caem-me lágrimas dos olhos, não sei porquê. Deve ter a ver comigo e não com eles (... choramos sempre por nós). Ninguém vê. Limpo a cara, apanhamos o táxi para o Hotel e fica para trás tudo aquilo...

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Só saberei muitas horas depois, já em Lisboa, que fiz oficialmente 2:55:02. Dois segundos atrasado... Dois segundos. Vou ficar a pensar no que significam.

No mínimo, lembrar-me-ão sempre que a Maratona não são “42km”. São 42km e 195m.

 

Não sei ainda o que aí vem com a equipa GAFE. Estou a precisar de não pensar em treinar uns meses. Gostava de engordar alguns quilos... Mas digo sempre isto e nunca cumpro. Vem aí o calor e as óptimas corridas ao sol. Gostava de melhorar a minha velocidade de base este Verão. De fazer uma Meia-maratona abaixo de 4:00 min/km, sem muito esforço. De fazer a Maratona de Paris em “passeio”. Gostava de fazer a minha primeira Maratona em Portugal. Sei que vou ajudar a Ana no seu treino para a sua estreia. Queria fazer uma prova na Escandinávia no Verão... Mas vou, se tudo se passar normalmente, participar na Maratona de NY no fim do ano. a mereci.